sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Admirável Nova Viçosa? Nem tanto

Foto: Laio Brandão

Pois que no ano de 1904, o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia foi entregue ao russo Ivan Pavlov. O fisiólogo, precursor do que viria a ser chamado condicionamento clássico, propunha que parte do comportamento humano é composta de funções e respostas inatas, sendo a outra parcela formada por imitação; que nossas ações são meras respostas ao ambiente externo, respostas a estímulos que geram resultados semelhantes, de forma sistêmica mesmo.



A descoberta abriu caminho para estudos em neurolinguística, que viria a servir de base para prática em tratamentos de fobias e campanhas publicitárias. As experiências pavlovianas foram feitas em cães. O homem não pode ser completamente compreendido a partir da psicologia canina – daí as limitações da escola pavloviana. Entretanto, pode ser integralmente manipulado desde a parcela canina do ser – daí seu sucesso  potencial.



Por meio de mecanismos neurolinguísticos, é possível reduzir a mentalidade humana a algo praticamente indiscernível de um cão. Sendo assim, sua proposição tem um alcance impensável na prática, dificilmente cogitado na teoria.
Já em relação à Lobotomia, não se tem casos de sua aplicação em cães. Porém, a prática rendeu ao neurologista, António Egas Moniz, o prêmio Nobel da Medicina e Fisiologia em 1949. Vinte e quatro anos depois de sua primeira aplicação.

Lobotomia  é uma intervenção cirúrgica cerebral brusca, uma lesão causada no lobo frontal do paciente leva a um estado sedado de baixa reatividade emocional. É bem verdade que a prática era dedicada a pacientes de patologias graves, como neurose obsessiva, depressão profunda e ansiedade crônica, entretanto, foram registrados casos escusos de sua aplicação em crianças hiperativas e/ou com distúrbios de comportamento que causavam incômodo, bem como psicopatas e outro detentos considerados perigosos. Já na década de cinquenta – pouco tempo após sua criação – a prática passou por um processo de abandono e proibição, com o surgimento de ansiolíticos e antipsicóticos, e hoje é considerada uma nódoa a história da neurologia e psiquiatria.

São muitas as formas de ingerência do no comportamento humano, das mais rudimentares e agressivas às mais sutis e elaboradas. Aldous Huxley notou, se não todas, a maioria das estratégias de moldagem do comportamento humano, bem como a dinâmica intersocial regente nas relações do quotidiano.



 Sendo assim, na década de 30 do século passado, o inglês nos brindou com visão atroz apresentada em seu romance Admirável Mundo Novo. Uma realidade em perspectiva, em que Huxley prevê uma nova sociedade no “século VII depois Ford” (o que nos leva aos anos 2600) – previsão essa que o próprio escritor tratou de ratificar em meados da década de 50, dizendo tratar-se de um processo tão latente que sua instituição efetiva não tardaria ao fim do século de XX.

Produção de bebês in vitro – que poderiam determinar, desde a criação do indivíduo, seu grau de inteligência ou sua posição social pré-determinada por meio do fluxo de oxigênio e nutrientes recebidos no tubo de gestação -  doutrinamento de crianças para a cidadania padronizada – com técnicas pavlovianas-  diversões programadas como parte da disciplina civil, e eliminação de qualquer preceito moral nas relações afetivas vão recompondo, aos poucos, a imagem global  de um mundo do qual a liberdade de escolha foi excluída, porém onde as criaturas repousam confortavelmente na submissão hipnótica à ordem estatal. A ditadura do pensamento é oblíqua no sentido perceptivo e aguda em seu efeito prático, aliadas ao constante entorpecimento das pastilhas de soma – "a droga da felicidade" – a realidade opressora do determinismo comportamental torna-se uma suave rotina. O pão e circo aos moldes da modernidade.

A TV e todos os outros meios massivos de comunicação conhecem perfeitamente o cerne das ânsias instintivas do homem. Muniz Sodré, que não é beócio, também sabe, e descreveu categoricamente como a programação televisiva age de modo alienante sobre a mentalidade do indivíduo. Em seu Império do Grotesco, as proposições nos alertam para como a grade de transmissão nos aproximam daquilo que temos de mais animalesco e sórdido, em contraponto àquilo que distingue o homem sem seu processo evolutivo; sua vontade em sair da miséria humana inata.




 O grotesco se caracteriza pelo rebaixamento, obsessão pela corporalidade humana comer, defecar, copular, arrotar, vomitar. Também se faz referência à nudez e ao sangue. Com referência freqüente a deslocamentos escandalosos de sentido, situações absurdas, animalidade, partes baixas do corpo. Entretanto essa relação não se mostra de fato impositiva, já que em pesquisas de opinião e resultado de audiência, a transmissões sugerem serem apenas um reflexo dos anseios culturais e imagético da população.

A hegemonia da aberração favorece um contínuo distanciamento da consciência crítica e dos compromissos éticos que deveriam nortear a difusão de conteúdos de massa.
Pois bem, assim sendo, há alguns meses nossa pequena cidade foi contemplada com a instalação de semáforos, sinaleiras, faróis, ou, apenas, sinais de trânsito. Representação de uma das mais simples e costumeiras interferências do estado moderno no estabelecimento da ordem do município por ele regido. Os sinais são reflexo da insuficiência de Viçosa em abarcar o volume de automóveis e veículos alternativos segundo o próprio bom senso e cortesia de cada cidadão, ao passo que o número de acidentes cresciam e o caos gerado pelo trânsito tornava-se insuportável.

A cidade ainda sofre com os mesmos problemas, mas mal ou bem todos são regidos pela mesma lógica e referência: as luzes verde, vermelha e amarela. Juntamente com eles – os sinais – singelos cercamentos foram instalados ao redor dos pontos críticos de travessia, já esses, reflexos da imprudência do pedestre em atravessar no local incorreto. A medida, ainda hoje, tem gerado indignação dos civis que trafegam a pé pela cidade. Numa lógica pavloviana, Viçosa passaria por um período de condicionamento, até que, como pequenos cordeirinhos nossa população, que abriga um centro da elite intelectual do país, pudesse se direcionar automaticamente para as faixas de pedreste, sem auxílio de cercas, entretanto, não parece que é o que irá acontecer,

Portanto, antes de subir às tamancas em reprovação a funcionalidade de nossos curraizinhos e sua composição estética grotesca, cada cidadão tem de se organizar e contribuir com a própria vontade no estabelecimento confortável da segurança no trânsito. Cada indivíduo tem de mostrar que consegue andar na linha, ou, pelo menos, atravessar na faixa, se não quiser sentir uma mão grande abstrata regendo seu comportamento. Exemplo de como se fazer não falta.


Foto: Laio Brandão

4 comentários:

  1. Cara, que viagem fantástica essa sua! Algumas derrapadas aqui ou ali, mas vc chegou bem no ponto. Texto criativo. Elegante.

    ResponderExcluir
  2. A pressa é inimiga da perfeição, né, amigo. Mas é isso aí, um texto perfeito não gera discussão.
    Valeu pela moral!

    ResponderExcluir
  3. Definitivamente não entendi o que este texto tem a ver com a proposta do projeto "Os informantes"

    ResponderExcluir