segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Entrevista com Marisa Barleto, Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Viçosa


Entrevista produzida para o Jornal Laboratório OutrOlhar, de Comunicação Social da UFV . Entretanto, nós editores do Blog entendemos que o assunto é de suma importância na construção de uma sociedade mais organizada e civilizada, bem como que o tema é pertinente também à proposta deste site.

O Conselho Municipal da Mulher é hoje o principal porta-voz da ala feminina da população de Viçosa, mas nem sempre foi assim. O que hoje representa um órgão engajado de assistência e debate voltado para melhorias na condição social da mulher, era até pouco tempo um grupo “minguado” e enfraquecido. É o que relata Marisa Barleto, presidente do Conselho e, professora do Departamento de Educação da UFV. A líder das discussões femininas, na cidade, contou-me em entrevista, em nome do Jornal laboratório OutrOlhar, sua trajetória ativa a serviço da mulher.

Marisa Barleto em entrevista - Foto: Fabio Moura


Professora, a senhora está na presidência do conselho desde quando?
R: Desde 2008, quando assumimos. Agora, ao final de 2010 nós tomamos posse novamente.

Sobre a sua formação, qual é a sua história, presidente? Já participou de outros coletivos, outros grupos de debate?
R: Outros coletivos, com certeza. Eu sou do RJ e vim para Viçosa em 95. Minha formação foi na área de Psicologia social, sempre voltada pra essas discussões políticas e sociais, trabalhar com educação, para mim, era isso. Eu já vinha de uma trajetória de militância, no Rio. E havia aqui um diretório bastante forte, na época, voltado para o grupo de discussões de Políticas para mulheres. Na UFV, em 2000, nós criamos o NIEG, o Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Gênero, que não é um grupo de direitos da mulher, mas envolve estudos de gênero. O conselho apareceu então nesse momento, com ajuda da defensoria pública. De repente, nós tínhamos muitas outras instituições interessadas dispostas a elaborar essa discussão voltada para mulher.

Quando foi criado o conselho?
R: O conselho foi criado em 2003, foi muito bacana a instalação dos conselheiros, do conselho, foi uma coisa de muita mobilização. Mas o que aconteceu, ele funcionou um pouco, mas acabou não vingando, por assim dizer. As reuniões eram chamadas, mas não havia quórum, ficava muito concentrado na secretaria do conselho, chamando as reuniões, fazendo tudo.

O quórum era composto por quem?
R: A composição do conselho era de representantes dos vários conselhos; conselho da saúde, conselho da criança e do adolescente, havia representantes da câmara e outros. Todo conselho é formado por cinquenta por cento de representantes governamentais e cinquenta por cento de representantes não governamentais, o que é um princípio básico, então havia essa composição. Do governamental, nós tínhamos a UFV, a prefeitura e outros. Esse conselho cumpriu sua primeira gestão de uma maneira muito precária, depois disso ele acabou “minguando”, enfraqueceu. Ele não foi reativado.
Agora, em 2008, a defensoria pública e a ESUV fizeram um evento sobre violência doméstica, eles deram um incentivo, um gás, nesse evento, chamando as entidades, chamando o NIEG da UFV, o Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Gênero. Foi um evento muito bom em termos de mobilização, conseguimos um documento reivindicando um plano de políticas públicas pra mulheres. Então, através desse evento nós fizemos uma “provocação”, e convocamos um novo conselho. E assim foi, nós retomamos as atividades do conselho, fizemos uma chapa... 

Ele (o conselho) não deixou de existir, não é?
R: É, não deixou, mas ele ficou desativado, quando chegou ao final de 2008, convocamos uma nova eleição para nova gestão, de 2009-2010. O conselho se recompôs e foi reativado. Fizemos quase um ano de preparação, o conselho discutia a pauta da Secretaria de Políticas Públicas para mulheres, discutimos lei Maria da Penha, fizemos vários seminários, no final do ano a gente fez um projeto, que ficou batizado de “Projeto Casa das Mulheres”. 

Mas o conselho atende a outros temas, ou apenas à questão da violência? 
R: Nesse momento, o quê nós fizemos... Centramos “fogo” na pauta do enfrentamento da violência.

Pois em seu discurso, na câmara, sobre a questão da reformulação para o biênio de 2011-2012, o objetivo principal era a violência, sempre foi esse ou havia outros?
R: Então, justamente, o conselho não possuía tema. Ele se constituiu, mas não vingou. Essa pauta foi dada pelo Segundo Plano Nacional de Políticas Públicas. Nós estamos tentando, e estamos conseguindo, seguir um projeto alinhado com as discussões a nível nacional, estadual e municipal; tentando fazer esse diálogo. Quando voltamos, então, com esse foco, o projeto toma uma dimensão muito grande. Estamos bem envolvidos nesse trabalho.

As denúncias têm aumentado? As pessoas tem se sentido mais seguras pra isso?
R: Sim, a gente tem percebido isso.

Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM)  de Viçosa


E a senhora acredita que está havendo uma quebra de barreiras? Que a mulher está conseguindo se impor?
R: Não diria uma quebra de barreiras, propriamente. Mas existem duas coisas importantes: uma, é que população em geral vem respondendo, aos poucos, às “provocações” que nós temos feito levantando esse debate, denunciando, reivindicando... A outra coisa é que nós estamos conseguindo construir caminhos para que uma política de enfretamento, uma política que discuta especificamente gêneros, seja criada. A criação de condições para assistência pública. O índice de violência nas casas é muito alto, não pode ser deixado para questões pessoais, deve ser trazido para esfera pública.

Quais outros assuntos entram na agenda?
R: Na rádio, já falamos sobre a presidenta da Escola de Samba Unidos dos Passos. Há a cooperativa das mulheres - a padaria do [projeto] “Mãos de Fibra”, da Violeira -, há o grupo das catadoras... É uma forma de dar a volta por cima, essas pessoas precisam de apoio, de dar um “basta” na história, apresentamos alternativas, não só como incentivo, mas como uma opção econômica mesmo, de geração de renda. Dessa forma, tentamos relacionar esses assuntos dentro do tema principal.

Existe um calendário das atividades que abordam o debate?
R: Ainda não, estamos gastando o tempo planejando esse pacto, essa união coletiva para essa gestão.

Há algum motivo principal que cause essa violência doméstica? Alcoolismo, ciúmes, desemprego...
R: Na verdade, é tudo isso. O que produz o problema é a ideia da dominação masculina, uma concepção de masculinidade que provoca isso. A concepção cultural da opressão, da violência, essa é que é a causa, nem todo mundo que consome álcool é violento, são violentos aqueles que precisam exercer a opressão sobre o outro, aí entram as crianças, as mulheres, o problema da questão racial...

E que tipos de violência estão presentes nesses casos?
R: Vários tipos. Existe a violência física, que é mais explícita, mas tem a psicológica também, que desqualifica a pessoa, a intimidação; por exemplo: o casal vai sair e homem diz “vai sair com essa roupa? Está parecendo uma...” Então vai-se destruindo, depreciando, agredindo aos poucos o sujeito. Tem também a violência patrimonial, expulsar a pessoa de casa, quebrar seus pertences, queimar tudo, acabar com seus objetos... E tem a sexual, situações de assédio e estupro. Meninos e meninas precisam prestar atenção no estão fazendo, eles estão imitando os mais velhos, começando errado... Mesmo nas situações mais bobas do cotidiano, é necessário prestar atenção.

Se você acha que a violência atinge somente aos casados, adultos, Marisa alerta que “por uma série de fatores as meninas acreditam que não tem problema, que é por amor, ciúme, e ela aceita desde cedo”. Fazem parte do Conselho a UFV, a Delegacia, a defensoria pública e a Secretaria de Ação Social. O telefone de contato é 3891-8105 e o anonimato é garantido.

4 comentários:

  1. tapinha de amor pode?

    ResponderExcluir
  2. Thiago Soares! vai ganhar seu tempo aprendendo que não há espaços para brincadeirinhas estúpidas, machistas e agressivas! Quando não tiver nada a acrescentar fica calado!

    ResponderExcluir
  3. Em suma, o tal conselho nada fez e muito pouco sabe sobre a violência contra a mulher em Viçosa. Não vi nenhum nùmero na entrevista.Bad

    ResponderExcluir
  4. Então não pode?

    ResponderExcluir